jueves, 29 de setiembre de 2005

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Giorgio Agamben

A linguagem da voz

por Raúl Antelo

Para muitos de nós a descoberta de Giorgio Agamben deu-se através de Walter Benjamin. Conhecíamos o filósofo como o editor da versão italiana das Obras Completas e, mais ainda, como aquele que tinha levado adiante alguns conceitos esboçados pelo precursor alemão.
Na oitava das Teses sobre filosofia da História, por exemplo, recolhemos um ensinamento da tradição dos oprimidos: o de que o estado de exceção em que vivemos é a regra. ''Devemos chegar a um conceito de história - prescrevia Benjamin - que corresponda a esse fato. Então, teremos a tarefa de produzir um efetivo estado de exceção''. Desse fragmento, é claro, deriva um dos horizontes maiores da grande obra de Agamben, uma autêntica work in progress, o seu ciclo do Homo sacer. Ciente de que, na sociedade ocidental contemporânea, a vida e a teoria precisam ser repensadas, em conjunto, em um novo plano de imanência, o da nuda vita, Agamben nos propôs esse conceito para pensar a paradoxal definição de povo, conceito que vira e mexe ainda é utilizado para legitimar ações na sociedade latino-americana pós-ditadura. Todavia, essa categoria analítica tradicional apresenta-nos hoje uma cisão biopolítica incontornável, já que povo é tanto aquilo que não pode ser incluído no todo de que ele faz parte, quanto aquilo que não pode pertencer ao conjunto em que, mesmo assim, ele permanece, excluído e indesejado.
Chegando a este ponto de seu percurso teórico, abria-se para Agamben a necessidade, como aliás fora prevista por Benjamin, de produzir um efetivo estado de exceção e justamente o volume que ostenta esse título veio demonstrar de que modo a racionalização da esfera do político, baseada em critérios normativos formais, acaba transformando a democracia ocidental num perpétuo estado de sítio. Agamben, portanto, soube detectar, na figura do Estado de Exceção, o instante em que a soberania vincula-se à própria suspensão do ordenamento jurídico, que, por sinal, deveria garantir a democracia. E esse conceito de instante obriga-nos ainda a assinalar que daquela mesma oitava tese benjaminiana, ou melhor, de um texto a ela associado, isto é, uma das notas preparatórias das teses em que Benjamin relembra Kafka, surge uma das forças do pensamento de Agamben: a de que o dia do juízo final é o dia de um juízo sumário, irreversível, mas é também um dia idêntico aos outros. Essa idéia de que cada instante é o instante do juízo está na base de alguns ensaios estéticos de Agamben, notadamente, seu ensaio sobre a fotografia, Il giorno del giudizio (2004), em que a imagem surge como um efeito coordenado de irrupção e retorno. Benjamin associava o efeito combinado desses dois movimentos antagônicos na configuração da história. Gerschom Scholem, por sua vez, soube apontar, em seu ensaio Walter Benjamin e seu Anjo, essa duplicidade através de duas figuras-dois nomes de Benjamin. Em um escrito auto-biográfico, um testemunho sobre si mesmo, temos uma versão luminosa, a de uma figura chamada Agesilaus Santander; mas esse pseudônimo de Benjamin esconde, anagramaticamente, o lado obscuro e sórdido, seu Outro complementar, Der Angelus Satanas. Portanto, a coincidência entre direito e avesso vem confirmar a dupla face da história, feita, ambivalentemente, de felicidade e redenção, como estipula a segunda tese benjaminiana.
J. Rodolfo Wilcock, poeta que, junto a Agamben, foi figurante no Evangelho de Pasolini, aponta, como única saída para os homines sacri contemporâneos, fazer uso das coisas. Outra não é a saída de Agamben, em seu último livro, Profanações (2005). Em um mundo em que a lei está habitada por um vazio que lhe é constitutivo, em um mundo saturado de imagens, que não cessa de produzir infinitos homines sacri, a saída é a profanação:
''La profanazione-nos ensina Agamben-implica (...) una neutralizzazione di ciò che profana. Una volta profanato, ciò che era indisponibile e separato perde la sua aura e viene restituito all'uso''. A profanação, tanto quanto a secularização, é uma operação política mas enquanto esta se relaciona com o exercício do poder, que legitima, ''riportandolo a un modello sacro'', a profanação, no entanto, ''disattiva i dispositivi del potere e restituisce all'uso comune gli spazi che esso aveva confiscato''.
O conceito de profanação guarda, a meu ver, extrema contiguidade com certos temas benjaminianos (a reprodução, a aura) mas não menos com uma teoria da linguagem que dois artistas tão distantes entre si, como Valéry e Duchamp, foram retirar de Leonardo da Vinci. Neles todos - em Duchamp, em Valéry, em Benjamin, em Agamben, através do desdobramento irônico que a imagem põe em funcionamento - o olho que contempla se torna olho contemplado e a visão se transforma também em um ver-se vendo, isto é, numa representação, tanto no sentido filosófico da expressão, quanto no sentido teatral e barroco, o de um teatro de máscaras. Daí provém a teoria do testemunho que Agamben desenvolveu em O que resta de Auschwitz. Quem depõe um testemunho, apresenta um relato de dessubjetivação, portanto, esse relato não pode ser captado pela perversa matriz do realismo mas deve ser tomado como um puro espaço de ficção, de tal modo que o sujeito é aquele fragmento alucinatório que, por um instante, julga-se um Todo. O testemunho ou a imagem não pertencem, então, ao mundo mas funcionam como limite do mundo, como uma borda insubstancial do mundo. Nesse sentido, aquilo que fala -num poema e num testemunho- tem uma consistência corporal mas, ao mesmo tempo, uma condição etérea. Possui uma matéria contingente, mas igualmente memoriosa, que leva a consciência de si (a cura sui de Foucault) ao máximo de sua sensibilidade, de tal modo, em suma, que aquilo que fala num poema ou num testemunho é a Linguagem saída da voz, muito mais do que a voz da Linguagem.
Resgatar a linguagem da voz é profanar: resgatar um corpo da abjeção sacra à qual a sociedade de controle o condenou.

Raúl Antelo é professor de literatura na Universidade Federal de Santa Catarina. É autor, entre outros, de Potências da imagem (2004).

(versión publicada originalmente en el Jornal do Brasil. El texto completo, acá)

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